segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Mundo dos deuses

Ab aeterno

...

Abro os olhos vagarosamente...

Estou deitado sobre o solo negro de uma densa floresta de carvalhos

Repentinamente de desconforto sinto medo, e logo reconheço o causador deste sentimento que me consome.

“Pã estás ai?” pergunto à minh’alma, e sem resposta levanto-me.

Apesar de todos os carvalhos terem perdido as folhas estava escuro e via-se ao longe a lua pairando na abobada celeste (uma constelação se destacava... a de Virgo).

Enquanto sem trégua minh’alma chamava por Pã percebi que as Hamadríades me observavam e as ninfas zombavam de mim como fizeram com o pobre Pã nascido para amar e não ser amado.

Então gritei: “Oh deusa Nyx irmã do Caos senhora da noite, criatura nascida da inexistência, estas a esconder o fauno sob suas asas?”. E ouvi o silêncio, pois minha voz vinha da razão e profanava o sagrado lugar.

Então percebi que era a distância que Astréia mantinha de mim o motivo do meu total abandono no mundo dos deuses, deixando a terra suja de sangue e corrupção (e pensei: “Que perfeição era o mundo que estava”).

Então pela primeira vez neste mundo dantesco sorri, e fiz como Ícaro, só que livre da ignomínia que dominava sua mente juvenil... E subi aos céus com minhas asas de cera em direção a lua, seguro, para ser embalado por Têmes.

Triste ilusão...

domingo, 9 de setembro de 2007

O relógio e eu

Sentado num sofá, observava um relógio de pendulo.
O frio e o silencio castigavam aquele lúgubre lugar
Direita... esquerda
Seu movimento oscilante, e estalar agonizante me encantavam.
Enquanto isso suavemente o som de uma musica começou a encher o lugar
“Tchaikovsky, claro, inconfundível” eu pensei.
Na medida em que a música tocava, acredito-me que ia sendo deslocado para um outro lugar, pois não conseguia sentir o chão nem o odor de madeira velha do lugar, muito menos o rangido do assoalho (apesar de tudo ainda ouvia o estalar do velho relógio).
Aos poucos consegui ver onde estava.
Um grande salão de festa surgiu na minha frente como um fantasma que sai das brumas.
Mas algo me chamava a atenção no pomposo lugar, e não eram as pessoas trajando belas vestimentas de seda, muito menos suas risadas forçadas nem a banda sisuda que tocava ao lado de onde eu estava, mas sim do velho relógio à minha frente com seu pendulo a oscilar.
Lembro-me que ia pra um lado e para o outro, seguindo seu movimento, e desta forma ia avançando salão adentro... E fui ziguezagueando desta forma até atingir a extremidade oposta do salão onde ele estava na parede.
Ao tentar toca-lo, a musica parou o salão sumiu junto com a banda e as pessoas que estavam dentro dele e percebi novamente que estava sentado no sofá.
Levantei, ainda fazia frio, apesar de tudo ainda podia ouvir a bela música.
Continuei a oscilar como o relógio do casebre materializado no salão.
Direita... esquerda...
E foi neste dia em que ao som de Tchaikovsky dançamos eu e o relógio.